Pular para o conteúdo principal

. Assassinado .

Não vejo graça na vida de hoje. Nada posso fazer, sem expectativa de vida, estou cansado de tanta luta. O mundo é assim, injusto, em cada lado há uniformes, um superior a outro. Não devo ficar na praça pouco depois de escurecer, nada de encontros com amigos ou festas familiares, eu, você, aqui, somos ninguém. Não, não, não, é tudo o que obtemos de resposta, junto as sirenes da polícia e ambulâncias correndo pela cidade.
Em casa menos de quatro pessoas por residência. Quem é de “bem” tem a sorte de viver sua vida, não em paz, mas, não ameaçados. Já aqueles considerados “maus” vivem sob a pressão dos cassetetes, dia após dia, ao final de cada batalha voltam para casa, quando voltam, quase mortos, física ou moralmente, quando não, realmente morrem, em todos os aspectos.
Ontem, logo depois do trabalho, quase seis da tarde, passei em frente a igreja. Na porta uma multidão, na verdade, hoje em dia, cinco ou sete pessoas são consideradas multidão, um complô contra o governo. Não era esse o caso. Logo quando parei, no meio da calçada, para observar a curiosa cena, pouco incomum, militares surgem de todos os lados, mascarados, jogam bombas de gás, fico bastante tonto, visão turva, respiração difícil, poucos batimentos cardíacos.
Com o pouco que consigo ver, me sinto no meio da multidão. Sinto pancadas pelo corpo, não posso me defender. Não sinto minhas pernas. Nenhum rosto conhecido. Gritos, choros, tiros, fumaça. Não! Não! Não! Como eles queriam, não para mim, não aguento mais. Caído ao chão, após pisões pelo tronco e cabeça, com os braços esticados, sinto alguém me puxar. Uso minhas últimas forças para tentar olhar. Vejo um homem, vejo o homem. Getúlio, pai do povo, ali, ao meu lado, assim como eu, sangrando, inescrupulosamente assassinado.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

. Refletindo .

Quando me lembro do teu sorriso vejo um rosto de menino, breve, pleno, calmo e agradável. Se olho dentro de teus olhos enxergo a tua alma, refletida como cristal a luz do sol. Esse mesmo menino, quando me abraça traz a segurança de Alcatraz, em seu colo sou capaz de dormir sem o medo de não acordar. Esse mesmo menino a quem agarrada estou é o homem que me levanta, que me leva ao céu, que me faz sentir mulher. É o mesmo que me causa frios e calafrios, que me deixa com vergonha ao me chamar de linda, que prova em poucas palavras e pequenos gestos que é possível apaixonar-se.

. Real .

Volto a sentir a vida da maneira que me foi determinada. Mais uma vez sou vítima da intensidade. Ou talvez eu seja a única causa dela? O vazio toma conta do meu ser, E mais uma vez estou sozinha. Todo esse mix de sentimentos, Vazio, solidão, tristeza, saudade, Me é tão comum Que ainda não entendo o por quê De me surpreender. Tenho amor, Apenas falta de amor próprio. Pelo mundo daria minha vida, O desgosto é chegar a esse ponto e Descobrir que ninguém vale essa vida. Porque é minha, De mais ninguém. Se minha é, Amar-me-ei. Pois no fim Sempre digo a mim, Ninguém nunca te amará Como eu te amei.

. Garoto .

Ontem depois de conversarmos peguei um livro, acendi a luminária, deitei em minha cama e me cobri com um cobertor de desenhos Walt Disney. Comecei a ler. Bobagem, não havia como me concentrar em algo tão explendoroso como “A Divina Comédia”, Dante meu companheiro de todas as horas, adorava linguagens cultas, quanto mais complexas melhor. Enfim, deixei o livro. Pus-me a observar o céu estrelado com poucas nuvens, através da pequena brecha feita pela cortina da imensa janela. Em minha mente escutei John Mayer e uma de suas canções dançava como o brilho das estrelas, formando teu nome. ‘I wanna write your name in the sky.’ Because you are my sunshine. Eu quero escrever seu nome no céu. Porque você é minha luz. Usando as palavras dele junto às minhas posso representar meus segundos de desejo. Desenhei seu rosto como se fossemos um só. Pude ver-te ao longe, e perto, cada vez mais perto. Ainda sinto o seu cheiro, tão suave como um bebê, sua pele branca e macia, seus olhos castanhos, g...