segunda-feira, 20 de agosto de 2012

. Assassinado .

Não vejo graça na vida de hoje. Nada posso fazer, sem expectativa de vida, estou cansado de tanta luta. O mundo é assim, injusto, em cada lado há uniformes, um superior a outro. Não devo ficar na praça pouco depois de escurecer, nada de encontros com amigos ou festas familiares, eu, você, aqui, somos ninguém. Não, não, não, é tudo o que obtemos de resposta, junto as sirenes da polícia e ambulâncias correndo pela cidade.
Em casa menos de quatro pessoas por residência. Quem é de “bem” tem a sorte de viver sua vida, não em paz, mas, não ameaçados. Já aqueles considerados “maus” vivem sob a pressão dos cassetetes, dia após dia, ao final de cada batalha voltam para casa, quando voltam, quase mortos, física ou moralmente, quando não, realmente morrem, em todos os aspectos.
Ontem, logo depois do trabalho, quase seis da tarde, passei em frente a igreja. Na porta uma multidão, na verdade, hoje em dia, cinco ou sete pessoas são consideradas multidão, um complô contra o governo. Não era esse o caso. Logo quando parei, no meio da calçada, para observar a curiosa cena, pouco incomum, militares surgem de todos os lados, mascarados, jogam bombas de gás, fico bastante tonto, visão turva, respiração difícil, poucos batimentos cardíacos.
Com o pouco que consigo ver, me sinto no meio da multidão. Sinto pancadas pelo corpo, não posso me defender. Não sinto minhas pernas. Nenhum rosto conhecido. Gritos, choros, tiros, fumaça. Não! Não! Não! Como eles queriam, não para mim, não aguento mais. Caído ao chão, após pisões pelo tronco e cabeça, com os braços esticados, sinto alguém me puxar. Uso minhas últimas forças para tentar olhar. Vejo um homem, vejo o homem. Getúlio, pai do povo, ali, ao meu lado, assim como eu, sangrando, inescrupulosamente assassinado.

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